• Sofia Botelho

Sob a casca das amêndoas, recordações.


Comecei a crochetar o Cachecol Amêndoa na primeira semana de isolamento da pandemia, em março. Recordo vividamente o momento em que a primeira amêndoa formou-se na trama do meu cachecol recém-iniciado. A lembrança é vívida pois a alegria ao observar a forma oval, completa, perfeita, da pequena amêndoa de crochê contrasta hoje em minha lembrança com a sensação de irrealidade e absurdo daqueles primeiros dias sob ameaça do coronavírus.



A receita da peça se encontra no livro "Curso de Crochê em 25 lições", uma versão portuguesa do livro de Marion Madel, publicada pela editora Planeta (para acessar o livro em inglês na Amazon, clique aqui). Desde que observei essa peça pela primeira vez fiquei curiosa com a sua trama. Quando observei mais atentamente a receita e vi que pequenas "amêndoas" de crochê intercaladas compunham o todo (o ponto utilizado é chamado no livro como ponto amêndoa), fiquei encantada. Vejam ao lado que fofura como é representada a amêndoa no gráfico que consta no livro!

Assim, quando finalmente comecei a tecer a peça em plena pandemia, a forma doce da amêndoa que minhas mãos iam tecendo parecia uma pequena dose de doçura em dias tão incertos e um tanto amargos. Hoje, ao afagar as amêndoas do cachecol, recordo-me dos pequenos momentos doces sob a casca de dias tão duros: os dias de intenso convívio com meu companheiro, Dudu, com quem não desfrutava tanto de sua companhia desde nossos tempos de estudantes de Letras na universidade. Rememoro também no sabor da amêndoas os aromas e sabores desfrutados nestes tempos forçosamente em casa, em que reavivei o prazer pela confeitaria, os aromas de bolos, cookies, brownies (que aperfeiçoei com esta receita abençoada da Rita Lobo) e sobremesas que contribuíram para nossos contentes quilinhos a mais de isolamento.

Clique aqui para ver o vídeo do reels que eu fiz enquanto tecia o cachecol


Foram assim, com pintadas de doçura, esses dias em casa, muito embora a saudade de nossa gente amargue os dias e a ausência dos abraços ainda resseque nossos braços-galhos em plena seca brasiliense. Foi em meados de agosto que teci os últimos pontos do meu cachecol, nessa pandemia que se alarga e não sabe o dom da concisão da amêndoa.


Observar essa peça completa, após uma jornada de cinco meses tão atípicos, me faz pensar que sempre terei nela a lembrança desses dias, desses momentos, das emoções que vivi enquanto a tecia. Esse cachecol é, portanto, um testemunho dessa minha história, tecido ponto a ponto, amêndoa a amêndoa. E pensar que bastará colocá-lo sobre os ombros para conectar meu passado, presente e futuro. Como no belo poema da poeta polonesa Wislawa Szymborska, em que um cachecol de tricô tecido por sua mãe é o único elo que vincula seu passado, seu presente e seu futuro, em um:


ADOLESCENTE


Eu — adolescente?

Se de repente ela me aparecesse aqui, agora,

deveria saudá-la como a uma pessoa próxima,

mesmo que me pareça estranha e distante?


Derramar uma lágrima, beijar a testa

somente pelo motivo

de termos a mesma data de nascimento?


Tanta dessemelhança entre nós

que talvez só os ossos sejam os mesmos,

o formato do crânio, as órbitas.


Pois os olhos já parecem maiores,

os cílios mais longos, a estatura mais alta

e o corpo compactamente coberto

de pele lisa, sem defeito.


É verdade que nos unem parentes e amigos,

mas no seu mundo quase todos estão vivos

e no meu quase ninguém

desse círculo comum.


Tanto nos diferenciamos,

de coisas tão diversas falamos, pensamos.

Ela sabe pouco —

mas com absoluta convicção.


Eu sei muito mais —

mas sem certezas.


Me mostra os seus versos,

escritos numa letra clara, caprichada,

que eu já não tenho há anos.


Leio esses versos, releio.

Bom, talvez só este,

se der para encurtar

e corrigir aqui e ali.

Para o resto não vejo futuro.


A conversa não engata.

No seu relógio pobre

o tempo ainda é vacilante e barato.

No meu, muito mais caro e preciso.


Na despedida, nada: um sorriso casual

nenhuma emoção.


Só quando some

e na pressa esquece o cachecol.


Um cachecol de pura lã,

com listras coloridas,

tricotado à mão para ela

pela nossa mãe.


Eu o guardo ainda.


Wislawa Szymborska. Um amor feliz (2016).

Tradução de Regina Przybycien


Com carinho,

Sofia

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