• Sofia Botelho

Manualidades e wabi sabi: um convite à presença

"Wabi sabi é o reconhecimento do presente que é a vida simples, lenta e natural." Kempton, Beth. Wabi sabi (2018).

Fiquei muito intrigada quando me deparei com o termo japonês wabi sabi pela primeira vez, em uma matéria da primeira edição da Revista Urdume assinada por Cristine Bartchewsky. Durante a leitura, senti imediatamente um encantamento pelo conceito, pois constatei que ele conversava com várias facetas que considero essenciais em minha vida atualmente: os trabalhos manuais, o chá e o contentamento com a vida lenta, simples, sem pressa. Logo fui buscar uma bibliografia para me aprofundar no assunto e encontrei o livro Wabi sabi, da Beth Kempton. Esta obra tem me ajudado a compreender melhor esse conceito estético e filosófico tão complexo e multifacetado. A cada dia que passa, fico mais intrigada com o wabi sabi e suas conexões com o feito à mão.


Já no prefácio, a inglesa Beth Kempton explica que wabi sabi é um conceito praticamente "indefinível". Ele está tão imbuído na cultura e no modo de ser japonês que, quando indagou japoneses sobre uma definição do termo em diversos momentos de sua experiência no Japão, a autora dificilmente conseguiu uma resposta objetiva. Segundo a autora, a compreensão japonesa do termo é intuitiva e intimamente conectada à sua vivência. Como ocidentais, talvez estejamos muito distantes para compreender todas as dimensões do wabi sabi. Ainda assim, nessa obra ela se lança à tarefa de procurar desvendar o termo que, a seu ver, é uma resposta interessante aos anseios do nosso tempo por uma vida mais simples, significativa, presente e conectada à natureza.


Origens: wabi sabi e a cerimônia de chá


Wabi sabi nos convida a estar presentes, de olhos e coração abertos, para a beleza.”

A história do wabi sabi está entrelaçada à história do chá no Japão. De fato, a ideia de wabi sabi tem uma de suas maiores representações na cerimônia do chá japonesa tal como ela se consolidou em meados do século XVI com o mestre do chá Sen no Rikyu, considerado o verdadeiro pai da cerimônia do chá. Sen no Rikyu foi responsável por revolucionar os parâmetros da cerimônia de chá, pois enfrentou a cultura de excesso que vigorava nas classes dominantes e reduziu a cerimônia ao estritamente necessário, primando pelo espaço intimista, sem ostentações, e por utilizar utensílios de bambu e cerâmica ao invés das porcelanas caras e extravagantes. Assim, ele buscava elevar a simplicidade como um ideal estético - ideia que está no cerne do wabi sabi.


O chá de Rikyu ficou conhecido como wabi, que significa "gosto suave". Esta palavra tradicionalmente se relacionava com as ideias de pobreza e insuficiência, mas com Rikyu passou a representar o ideal da simplicidade, do contentamento tranquilo, da vida simples, da atenção aos detalhes. Já a palavra sabi significa "simplicidade elegante" e está muito presente nos haikais de Matsuo Basho, escritos no século XVII. Com o tempo o conceito de sabi passou a representar a beleza inspirada pela natureza, a beleza que surge com a passagem do tempo, o ciclo natural da vida e a nossa mortalidade. Logo, o termo wabi sabi possui séculos de história. Entretanto, segundo Kempton, passou a ser reconhecido como conceito somente nos últimos 100 anos. É um sentimento “intangível”, que os japoneses não conseguem explicar com palavras.


Conexões: wabi sabi e as manualidades


Mas o que tem a ver wabi sabi com o fazer manual? Uma frase da Beth Kempton que mexeu muito comigo é que o mundo materialista e acelerado em que vivemos nos fez abrir mão de um dos nossos recursos mais preciosos: a nossa atenção. Nosso olhar aberto para enxergar a beleza da simplicidade e vivenciar a passagem do tempo, os ciclos naturais da vida. Da forma acelerada e alienada em que vivemos, piscamos os olhos e perdemos a beleza do momento. Uma das coisas que me atraem na poesia é exatamente sua habilidade de cultivar a atenção plena. Além da poesia, estou certa de que o trabalho manual é uma ferramenta perfeita para exercitar essa atenção e manter nossos olhos e coração abertos.


Aliás, foi isso o que me motivou a buscar o crochê. Como já comentei por aqui, encontrei os fios quando estava passando por um momento doloroso de ansiedade e depressão. Essa é também a história de muitas pessoas que eu conheço. Buscamos os fios e o fazer manual por sua capacidade “terapêutica” que é - na minha opinião - nada mais do que sua potencialidade de desacelerar nossa mente, despertar o nosso olhar, aprofundar nossa respiração e vivenciar o momento presente. E isso tudo é o caminho para o wabi sabi.


Fazer trabalhos manuais é também compreender a natureza cíclica da vida e a passagem do tempo. É apreciar a jornada, o processo. Vejo muitas pessoas transferindo suas ansiedades da vida para seus trabalhos manuais e tudo o que quero dizer a elas é: calma! Não faça assim, respire, valorize o processo, não só o ponto de chegada. Isso também é wabi sabi:





"Como escreveu o pregador budista Kenko há sete séculos: “Será que devemos olhar para a primavera somente no florescer total e admirar a lua apenas quando o céu está claro e sem nuvens?”





Acho que por esse motivo gosto tanto de fazer xales. São projetos longos, repetitivos, que nos convidam a apreciar a jornada. Ao final do ciclo, o contentamento é ainda maior por ter sido alcançado assim, sem pressa.


Presença wabi sabi: chá, manualidades e atenção plena


"Wabi sabi é um estado do nosso coração. É uma inspiração profunda e uma expiração lenta. É sentido em um momento de verdadeiro apreço, um momento perfeito em um mundo imperfeito. Podemos alimentá-lo com a disposição de observar os detalhes e cultivar o deleite."

Embora eu observe o wabi sabi com meu olhar estrangeiro e talvez nunca o compreenda em toda a sua dimensão, vejo como o chá, a poesia e o trabalho manual são ferramentas que me aproximam desse estado de atenção que me encanta e me convida a experimentar uma vida mais plena. A jornada de cada projeto de crochê, tricô ou bordado é um convite, ponto a ponto, à inspiração profunda e expiração lenta, à atenção plena, à presença.





Livros citados:

Wabi sabi por Beth Kempton (2018)

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